segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher

Quando se regressa a casa a partir das 23,30h e se viaja a partir da estação de Entrecampos, basta um simples olhar de soslaio para se constatar que são elas a esmagadora maioria das passageiras.
São trabalhadoras de serviços menos qualificados, limpezas, serviço doméstico, ajudantes de cozinha, muitas delas imigrantes moradoras nas zonas periféricas da cidade de Lisboa ou da margem sul.
E, se fizermos o percurso matinal, desde os barcos de Cacilhas aos comboios de Sintra, do Barreiro ou de Setúbal encontraremos quadro semelhante a partir das 6,30 da manhã.
No Desemprego...
Quando olhamos para as estatísticas do desemprego verificamos que elas são a maioria dos desempregados (63%) das mais elevadas da Europa. Tal situação verifica-se tanto na procura do primeiro emprego como na procura de novo emprego.
A cada dia que passa, é mais difícil decifrar o impacto da taxa de desemprego nas mulheres.
São as trabalhadoras da Alisuper, da Maconde, da Lear, e de tantas e tantas empresas têxteis de vestuário e calçado, de tantas e tantas empresas de serviços e de hotelaria, as primeiras a receber a "carta" que dita o seu despedimento.
São as jovens mulheres licenciadas as que mais dificuldades têm de ingressar na profissão compatível com o seu grau académico.
Na discriminação salarial...
Quando olhamos para os salários em Portugal verificamos que elas recebem menos 18,7% do que os homens.
E, não se pense que é apenas no tão falado sector da cortiça que tal discriminação existe. Neste sector o escândalo ultrapassa os limites, porque a discriminação, para além de instituída pelo patrão, tem sido sindicalmente consentida e ilegalmente confirmada pelo Ministério do Trabalho. As desigualdades salariais também ocorrem desde os gestores aos estagiários. No primeiro caso o valor é de 2.342,8€ para os homens, e 1.660,7€ para as mulheres. No segundo caso e de 482,5€ contra 453,1 para homens e mulheres respectivamente.
Na representação...
Quando olhamos para os cargos de topo do Estado e da Administração Pública as desigualdades tornam-se evidentes, apenas alguns exemplos; No Governo elas são 10 em 55; no Conselho de Estado 1 em 18; na AR 68 em 230; na presidência das Autarquias 21 em 308.
Na Administração Pública são apenas 28,9% nos cargos de topo, quando nos níveis inferiores são a esmagadora maioria.
Na violência doméstica...
Mas a vergonha maior está nos dados dos últimos seis anos em matéria de violência doméstica: 201 mulheres mortas às mãos dos seus maridos ou companheiros.
São de todos os extractos sociais. A violência doméstica não tem classe social ou etnia próprias, como o não têm quaisquer outras formas de opressão sobre as mulheres.
E é porque esta realidade crua e dura que, atravessando um século de história, continua teimosamente a persistir, não obstante avanços inquestionáveis que se têm vindo a fazer, que hoje 8 de Março de 2010 a exigência é a de recolocar o feminismo na ordem do dia.
A superação da sociedade patriarcal parida e aprofundada pelo capitalismo é inquestionavelmente uma das condições da esquerda socialista, não circunscrita apenas a um partido ou espaço nacional.
Abusando um pouco de Marx direi que o comando terá que ser " Mulheres de todo o Mundo UNI-VOS".
Mariana Aiveca - Deputada do Bloco de Esquerda

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